O GOL DE BUSH

Uma imagem aérea de um noticiário nacional me chamou atenção: milhares de manifestantes aglomerados na Avenida Paulista protestando contra a vinda do presidente dos Estados Unidos ao Brasil. Alguns não protestavam contra a visita em si, mas contra "ele" mesmo. Por quê? Tem gente que diz que ele quer dominar o mundo, ou reclama da política que faz com que muitos países permaneçam na lanterna do desenvolvimento, outros falam do "financiamento" das guerras... todos nós temos "n" motivos pra concordar, pra descordar, gostar ou não da vinda do "tal" presidente. Mas um nó ficou na garganta neste dia 8 de março de 2007: “eu não estava na Avenida Paulista protestando”. Apenas observei pela TV... teve até confusão...: polícia "do Brasil" contra "brasileiros", miseráveis retirados de seus lares improvisados, caos no trânsito... mas eu não estava nem no trânsito. Nem presa em algum lugar por causa de Bush. Eu tava no "ar-condicionado" olhando os meus irmãos de "nação" apanhar, derramar sangue e suor vestindo a camisa verde e amarela. A minha? Bem... hoje eu saí de verde "claro". Não era aquele “verde-escuro"! A chama meio apagada que nem fiz questão de "acender" antes de sair de casa talvez denunciasse o meu estado de "patriotismo", ou melhor, o meu “pouco caso” neste dia em que o presidente mais polêmico do mundo chegou ao Brasil. Quando eu tava na frente da TV e olhei aquela confusão, aquele corre-corre, aquelas faixas de FORA BUSH, me senti um ser apático, sem iniciativa. Lembrei das palavras do meu pai. Ele sempre fala que os jovens de hoje são pouco comprometidos com a política, com o social. Na época dele havia um fervor! A ditadura não perdoava, mas a juventude também não. Talvez tenha sido “aquela” a época mais produtiva culturalmente para o Brasil. A época em que vestir a camisa verde amarela significava dizer: Brasil, eu vou lutar por você! Mas nãããããão... a gente (me incluo) só diz que vai lutar a favor do bendito país de quatro em quatro anos, quando a seleção Brasileira de Futebol entra em campo. Os jogadores com seus salários milionários viram verdadeiros deuses e nós... sofremos, morremos e matamos por eles! Mas sem falar em futebol (que por sinal me deixou frustrada na última COPA!) quero falar de BUSH. A vinda dele ao Brasil está sendo muito significativa. Entendo desta forma porque pelo menos "meia dúzia" de milhares de BRASILEIROS estiveram na Paulista: levantaram cartazes, gritaram em megafones, enfrentaram a polícia, "picharam" muros. E eu? Repito: Eu tava no ar-acondicionado! Hoje no fim do dia fiquei triste porque depois de refletir queria pelo menos protestar num “muro”, podia ser até o muro do meu prédio, a parede do meu quarto... eu poderia ter usado uma fitinha verde "escuro" na testa, no braço.... . Mas não... eu não participei de nenhum protesto. Tava "quente" lá fora. O frio estava mais gostoso, cômodo.

Ah... "eles" (os manifestantes) que se matem! Eu não vou perder a aula por causa de Bush! - disse o pensamento que vestia "verde claro".

Quer saber?!

Bush deveria vir mais vezes ao Brasil! Isso mesmo!

Ele poderia visitar o país pelo menos uma vez por mês! Quem sabe assim aos poucos eu, e mais alguém, e mais alguém... se interessaria pela causa, e a meia dúzia de milhares se transformaria em milhão. Quem sabe assim o prefeito limparia mais vezes a cidade... quem sabe assim alguém se mexeria pelo menos esta vez ao mês!

Acho que nasci na época errada. A ditadura "visível" era muito mais provocante, estimulante. Dava mais vontade de lutar, de ser "do contra", de ser a favor do bem. A ditadura camuflada é um convite à passividade. Prova disto: aqui estou eu. Sem ter participado de um pouco da história do país do futebol.

Escrito por Micheline Galvão às 01h37
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